Já era 3:48 da madrugada, quando escuto meu celular tocando, de susto eu pulo da cama, pensando na possibilidade de que o barulho poderia acordar meus pais. Fui correndo abrir a mochila para procurar o maldito celular. Depois de tirar todas as coisas que havia lá dentro, frui me lembrar de que o celular estava guardado na minha gaveta.
E droga, aquele maldito toque ainda tocava. Fui correndo na ponta dos pés, mas quando vi quem estava me ligando até pensei comigo mesma ”Da próxima vez vê se desliga o celular antes de dormi Clara”. Atendi tentando falar o mais baixo possível:
— Tá, me fala o real motivo de você me ligar essa hora da madrugada filho da puta.
— Hm, ta nervosinha você né? Adoro te ver assim. Só não desliga na minha cara porque o que eu tenho que te falar é muito sério ta bem?
—Sério? Sério vai ser o murro que eu vou dar na sua cara no instante que eu te ver hoje idiota. Mas me conta rápido então, por que você está atrapalhando o meu sono.
— Esse era pra ser o momento em que você é meiga comigo, não arrogante. É o seguinte tampinha — é caros amigos, infelizmente é assim que o Felipe me chamava, talvez pelo fato de eu ter os meus 1,56 de altura —, assim que acordar você passa aqui em casa, preciso te contar uma coisa, que na verdade já era pra ter te contando a tempos, mas tava esperando a hora certa.
— Coisa? Que coisa? Felipe, por que não agora? Qual vai ser a diferença de agora ou daqui algumas horas e te…
Quando eu me dei conta, ele já havia desligado o telefone, na minha cara. Voltei a dormir, Com pensamentos turbulentos ligados a tal coisa que ele queria me falar. Fiquei durante o resto da noite inteira tentando dormir, até que meu despertador tocou e eu em um pulo levantei da cama, coloquei roupa e sai de casa. Eu estava escutando “growing up” que era nossa música preferida, da nossa banda preferida. Eu estava sorrindo por lembrar de nós dois cantando juntos, até que cheguei na casa dele — que não era muito longe — e entrei. Sua mãe estava guardando umas roupas em uma mala e eu logo notei que eram roupas do Felipe. Eu reconhecia cada peça e então me toquei que tinha entrado sem bater na porta.
— Tia Kátia, me desculpa. Esqueci de bater. O Felipe vai viajar?
— Oi Clara, não tem problema, você é de casa. — disse ela, puxando meu saco, como ela costumava fazer. Alias, já contei que a mãe do Felipe sempre quis que eu fosse sua nora? A gente sempre riu disso. — Não querida, ele passou mal durante a madrugada, está no hospital.
— O que? — Eu praticamente berrei, meu coração estava batendo forte e eu podia sentir minhas pernas tremerem. — O que aconteceu? O que ele tem? É algo sério?
— Nós não sabemos ainda, se quiser, daqui meia hora eu te dou uma carona e nós vamos visita-lo juntas.
Eu agradeci, mas dispensei, não podia esperar mais nem um minuto pra ver como o Felipe estava. Será que era isso que ele tinha pra me contar? Será que ele está doente? Mil pensamentos passavam pela minha cabeça, eu estava correndo e tropeçando nos meus próprios pés. Chegou, aquele maldito hospital. Entrei e perguntei pelo Felipe já com um aperto no coração sufocante e as lágrimas ameaçando a cair. “Calma, Clara, calma. É só uma gripe, uma dorzinha fraca, vai passar…” eu tentava me animar, mas nada era maior que aquele pressentimento ruim que eu sentia.
Eu entrei e o vi, ele estava pálido e com certeza não era só uma gripe. Ele estava com os olhos fechados e os abriu quando escutou que alguém estava entrando. Seus olhos azuis estavam ali, mas não eram os mesmos de sempre. Eu não podia encontrar um pingo de alegria nele. Quando ele viu que era eu, tentou se manter forte. Sorriu como se nada estivesse acontecendo.
— Chega mais, tampinha. — mesmo com aqueles olhos fundos e sua cara de doente, ele era lindo — Senta aqui.
— O que você tem?
Eu pude o sentir respirando fundo, por dificuldade e também por falta de jeito de dizer aquilo.
— Eu estou doente. Clara, é sério. Eu não vou sobreviver.
Duas lágrimas caíram sobre seu rosto e umas dez caíram do meu.
— Seu idiota. Para de brincadeira.
— Eu não estou brincando.
Nesse momento eu não podia mais sentir meu coração, era como se alguém enfiasse uma faca em minhas costas. Nunca tinha sentido tanta dor só de me imaginar sem ele.
— Felipe, você não me contou nada. Por quê? — as palavras saiam em meio a soluços — Eu não posso viver sem você, eu não consigo… Filho da puta! Você pretendia não me contar? É isso? Você pretendia morrer sem me contar nada?
— Clara — ele disse já com os olhos vermelhos— A sua bronca pode esperar mais um pouco. Agora eu quero que você olhe para mim, e preste muita atenção em cada palavra vai sair da minha boca. Me desculpa por demorar tanto assim pra te falar isso. Eu gosto de uma menina sabe? Ela é durona e acha que sabe mais que todos, talvez seja por isso que eu demorei tanto assim pra dizer isso a ela. Comparações são facilmente feitas, uma vez que você tem o sabor da perfeição. E ela tem isso sabe? Ela não é como as outras. Ela é como um verão indiano, no meio do inverno é como um doce duro, com uma surpresa no centro. Ela é doce como um mel, mas sabe bem agir como um moleque. Ela costuma me fazer sorrir e morrer de ciúmes a cada menino que encosta nela. Ela canta “growing up” comigo e é a menina que mais fica linda com short jeans, blusa branca e sem maquiagem. Ela é aquela que faz meu coração pulsar rápido e amolecer em questões de segundos. Ela é minha melhor amiga, ela se chama Clara.
Se eu fosse descrever minha reação seria como se na verdade quem estivesse morrendo naquele momento fosse eu. Mas acho que era isso, se ele morresse eu também morreria. Ele era eu. Eu era ele. Nós éramos nós. Só nós dois, com nossas babaquices e palhaçadas.
— Eu te amo.— meu olhar, desliza sobre os lábios dele, até que quando eu me dou conta, já havia o beijado— Promete que vai estar sempre comigo? Onde quer que você esteja, você sempre vai ser meu anjo. Eu o olhei e ele estava sorrindo. Eu o olhei e dessa vez não vi apenas meu melhor amigo babaca. Eu vi meu amor. Meu melhor amor. E então ele começou a cantar… “We never had a chance, I remember that…” mesmo chorando, eu cantei também. “We will never lose what we had…” eu pude senti-lo parar de respirar aos poucos. Eu o olhei pela ultima vez, e ele me olhou pela ultima vez e sussurrou “We’ve got so much to prove…” e então fechou os olhos e não os abriu nunca mais. Eu o abracei com força e cantei pela última vez “Cause it’s time to move on…” ele se foi.

Nenhum comentário:
Postar um comentário